A história de um dos homens mais poderosos do país revela-se cômica sob o olhar de Morais
Sem dúvida, um dos personagens mais controversos e polêmicos de nossa história foi o jornalista e empresário Francisco de Assis Chateaubriand, que em vida foi dono de nada menos do que um império de quase cem jornais, revistas, estações de rádio e televisão - os Diários Associados, além de ter sido fundador do Masp. Fernando Morais soube aproveitar bem esta personalidade ao mesmo tempo empreendedora e mesquinha para escrever Chatô – o Rei do Brasil (1994), biografia que, mesmo sendo excessivamente longa (732 páginas), vendeu mais de 225 mil exemplares.
Em sua infância, Chatô foi um garoto gago, feio, raquítico e amarelo, filho de Francisco José e Maria Carmem, que nasceu em Umbuzeiro, no Estado da Paraíba, em 4 de outubro de 1892. Ainda adolescente, aproximou-se da poderosa família Lundgreen, a maior anunciante dos jornais nordestinos, conseguindo, assim, seu primeiro emprego de jornalista. Desse primeiro passo até se tornar o poderoso dono de um verdadeiro império de comunicações, Chatô foi protagonista de diversas intrigas, chantagens, brigas familiares e colecionador de inúmeros amigos e inimigos.
Uma bibliografia de 72 livros e entrevistas com 174 personagens dão a medida do intenso trabalho de pesquisa e apuração de Morais. A despeito de uma apuração digna de trabalho acadêmico, a linguagem jornalística utilizada pelo autor flui naturalmente e a divisão do livro em capítulos curtos, cujo enlace se dará somente no próximo capítulo, prende o leitor do início ao fim.
Muitas vezes, a narrativa se assemelha a um romance, como no início, que conta um sonho antropofágico de Chatô: “Inteiramente nus e com os corpos cuidadosamente pintados de vermelho, Assis Chateaubriand e sua filha Teresa estavam sentados no chão, mastigando pedaços de carne humana (...). Pai e filha comiam com voracidade os restos do bispo Pero Fernandes Sardinha (...). Quem apurasse o ouvido poderia jurar que ouvia, vindos não se sabe de onde, acordes de Parsifal, de Wagner.”
Deste modo, é evidente que a obra é um exemplo do que Walnice Nogueira Falcão chama de “novo biografismo”, cujas obras, segundo a professora, “são bem menos sisudas que as biografias oficiais.”
Fernando Morais se coloca na obra ao dar um tom anedótico à narrativa, muitas vezes relatando as piores ações do biografado como apenas mais um fato cômico protagonizado pelo mesmo, que fará o leitor dar boas gargalhadas: “Um dia, a terapeuta norte-americana Edith Engelen procurou Emília indignada (...): ela estava se demitindo (...). Chateaubriand a tinha convidado para “furunfar” com ele. Delicademente, Edith explicou que não queria e não podia (...). O patrão, por vingança, mandou um dos empregados soltar dentro da piscina térmica meia dúzia de patos criados no quintal da casa. Quando chegou naquela manhã para fazer seu aquecimento, a estrangeira encontrou a piscina cheia de patos – e a água imunda, coberta de fezes das aves.”
Chatô sempre atuou na política, nos negócios e nas artes como se fosse o dono do mundo. Mais temido do que amado, sua difícil e muitas vezes cômica trajetória está associada inseparavelmente à vida cultural e política do país entre as décadas de 1910 e 1960. Viveu densamente o ciclo das revoluções tenentista e a época das grandes invenções, desde o avião até a televisão. Assim, sua biografia, além de ser um relato curioso e interessante do ponto de vista ‘voyuerístico’, é um ótimo meio de conhecer mais sobre a história contemporânea do Brasil.