Entre o crime e o castigo

 

Ventura explora diversos lados de uma história que na verdade tem um lado só

 

No dia 22 de dezembro de 1988, um filho de um fazendeiro de Xapuri, no Acre, dispara um tiro de espingarda de tocaia com mira no maior líder sindical e ambientalista que a Amazônia tivera até então – Chico Mendes - e acaba com a vida do ecologista acreano, que estava então com 44 anos. O caso repercute não só na mídia nacional como também na internacional, já que o líder seringueiro era mundialmente reconhecido por seus métodos pacifistas de resistência ao desmatamento no Acre e pela sua luta por uma exploração sustentável da floresta. O assassinato, que já havia sido anunciado pela própria vítima diversas vezes, deixa em Xapuri um ar de revolta e impunidade e transforma o pequeno vilarejo em centro das atenções do país.

 

A cada dia chegavam mais pessoas na cidade que foi palco do crime mais falado do momento - autoridades, jornalistas, ambientalistas, curiosos - todos queriam conhecer o povoado de origem daquele visionário que precisou morrer para ter sua luta reconhecida no Brasil. É dentro deste panorama tenso que o Jornal do Brasil decide enviar um correspondente ao Acre para acompanhar a apuração do assassinato de Chico e entrevistar pessoas direta e indiretamente envolvidas no caso. Para realizar esta tarefa, ninguém melhor que Zuenir Ventura, jornalista com mais de trinta anos de experiência, então repórter especial daquele veículo.

 

Munido de “gravador, caderninho e uma inesgotável curiosidade profissional”, Ventura chega ao Acre cerca de dois meses depois do crime, estado do qual até aquela ocasião “só conhecia o mapa” e que será o cenário para a série de matérias de sua autoria publicadas no JB sob o título “O Acre de Chico Mendes”. A reportagem político-policial ganhou o prêmio Esso de Jornalismo e o prêmio Vladimir Herzog de direitos humanos, tendo sido compilada em livro 14 anos mais tarde, intitulada de “Chico Mendes – Crime e Castigo”. A obra é dividida em três partes: a primeira é composta pela série original de reportagens veiculadas no JB; a segunda contém matérias feitas em conjunto com Marcelo Auler, em 1990, redigidas na ocasião do julgamento dos acusados e a terceira é um epílogo da reportagem, no qual Ventura retorna ao Acre 15 anos após o assassinato de Chico. 

 

 O livro-reportagem não é uma biografia de Chico Mendes, por mais que a história do líder ecologista apareça nos depoimentos dos moradores da região, mas sim um relato do que aconteceu após o assassinato do ambientalista. A primeira parte do livro é muito mais um retrato social da cidadezinha do interior do Acre do que um balanço sobre a vida de Chico. Um perfil do seringueiro é traçado conforme são cruzadas as declarações das personagens reais do livro, dando ao leitor a idéia de um homem determinado e justo, mas que, como todo ser humano, também tinha defeitos.

 

Entre o crime e o castigo, o autor nos transporta para uma realidade longe de nosso cotidiano, repleta de personagens vivos que divergem entre si e formam um quebra-cabeça de diferentes visões. Mesmo assim, como afirma o jornalista Marcos Sá Corrêa, no posfácio do livro, Ventura, “sem ter uma linha de isenção, consegue mostrar todos os lados de uma história que, no fundo, tinha um lado só”.

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