Arícia Martins e Aryanna Oliveira
Mesmo passados mais de cem anos de sua primeira publicação, a grande obra machadiana continua desafiando a interpretação de críticos
“Traiu ou não traiu?”. Esta é a pergunta que irremediavelmente ficará na cabeça do leitor mais avisado após concluir a leitura de Dom Casmurro, uma das obras primas do gênio do realismo, Machado de Assis. O livro, lançado em 1899, até hoje intriga e surpreende, dividindo opiniões de críticos e leitores em torno da confiabilidade do narrador Bento Santiago e do caráter de Capitu, a grande personagem do romance. Mas nem sempre a leitura de Dom Casmurro foi tão instigante assim.
Até a década de 1960, Dom Casmurro figurava como romance de adultério, ao lado de obras como Primo Basílio, de Eça de Queirós, e Madame Bovary, de Gustave Flaubert. O que tornava Machado um gênio era o estilo e a elegância de sua linguagem.
Foi preciso o olhar atento de uma crítica americana, em meio à agitação feminista que ocorria nos EUA na década de 60, para, digamos assim, reabrir o caso. Helen Caldwell, em seu estudo The Brazilian Otelo de Machado de Assis, defende a idéia de que um marido que se julgava traído e sempre se sentira intimidado pelo caráter forte da esposa – “Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem” – não é a melhor pessoa para traçar o perfil de Capitu. Caldwell argumenta que mesmo que não se possa provar a inocência desta fascinante personagem, também jamais se conseguirá provar sua verdadeira culpa.
É irrefutável a alegação da crítica. Mas por que durante sessenta anos três gerações de críticos e leitores deixaram-se convencer da culpa de Capitu, sem ao menos desconfiarem do contrário? Bem, Machado de Assis passou para a história como um gênio, mas também como um bruxo e, qual todo feiticeiro, o escritor carioca tinha lá seus truques.
Estas artimanhas que o autor utilizou para enganar seus leitores - o que o escritor apreciava e muito - foram abordadas por diversos críticos literários, mas poucos as esclarecem tão bem e apresentam tantas novas idéias a respeito do tema como John Gledson em seu Machado de Assis: impostura e realismo. Através de um texto acessível e sucinto, Gledson guia o leitor através do labirinto machadiano construído em Dom Casmurro.
O primeiro assunto a ser tratado por Gledson é o tal prazer em ser incompreendido que Machado possuía. Luís Antônio Aguiar, outro crítico também especialista em Machado, crê no contrário desta idéia. Para ele, Machado era e queria ser lido. Quanto a isto, não há dúvidas; Aguiar se esquece é de que ser um escritor popular não significa, necessariamente, ser compreendido por todos que o lêem. Os romances de Machado fizeram sucesso entre a escassa parcela da população que gostava de ler em sua época, mas o que Gledson ressalta é que “existe sempre uma verdade a ser adivinhada pelo leitor cuidadoso e perspicaz”.
Tão enganoso como Machado, para Gledson, também é Bento Santiago, o narrador advogado que faz de seu livro uma peça de acusação contra a mulher. Nesta idéia não há nada de original, porém o crítico inova mais uma vez ao afirmar que Bento é, além de enganador, também um enganado. Ele não quer persuadir somente ao leitor, mas também a si próprio. Algumas pistas deste fato são dadas através de intervenções do autor na narração, interrupções estas que normalmente o leitor não percebe, fazendo as vezes do narrador de terceira-pessoa.
Gledson usa este raciocínio para introduzir outra novidade ao leitor: não se deve classificar Dom Casmurro como um romance narrado em primeira pessoa. Bento Santiago, ou Bentinho, narra sua história em 148 capítulos, todos curtos e titulados, como se em pequenos flashbacks conseguisse prender o leitor cena a cena, ou melhor, capítulo a capítulo. Com a intenção de, segundo ele, “atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência”, o autor rememora sua trajetória, dividindo-a basicamente em duas fases, ambas estruturadas em torno de seu romance com Capitolina, a menina Capitu dos olhos de ressaca.
Na primeira fase, da adolescência, a linguagem apresenta um lirismo poético, e é narrada em ordem cronológica, com uma Capitu mais dominadora que toma as rédeas do jogo amoroso. O narrador aqui se descreve como um adolescente puro e ingênuo que é envolvido na sedução e nas artimanhas de Capitu.
A segunda fase, repleta de digressões e intervenções do autor, compreende a progressão do relacionamento entre os dois, que resulta no casamento de Bento e Capitu. Um realismo pungente e amargurado dá voz a Bentinho, que se torna o patriarca da família, assume o controle do relacionamento e o leva à destruição. Nesta parte, o romance se transforma em peça de acusação, o que é imperceptível ao leitor já tão contagiado pela trama da primeira parte que se deixa ser manipulado pelo narrador.
Machado soube na obra, usar como poucos a retórica de metáforas e citações, tornando-as suas aliadas e manipulando-as quando e como convinha. Importante ressaltar a natureza retórica de Bentinho. Seu caráter de homem letrado e versado na literatura, sua profissão de advogado experiente, dão a ele uma capacidade singular de usar as palavras certas no momento correto, enlaçando o leitor em uma trama que não é capaz de compreender imediatamente e sim sendo conduzido a cada página.
O leitor mais passional, por exemplo, de imediato condenará Capitu, no momento em que o narrador relembra a origem de sua desconfiança com a morte de Escobar, seu grande amigo desde a época de seminário. É nesse momento que Machado se utiliza da metáfora mais importante e maldosa de toda obra - os olhos de ressaca de Capitu - que já havia sido criada na primeira parte do livro, quando o ainda garoto Bento fitava os olhos da almejada menina Capitolina. Mas é evidente que a figura de linguagem não surgiu ao acaso naquele momento, como nos quer fazer crer Dom Casmurro; ela seria o enlace perfeito para associar os olhos de Capitu à Escobar, que faleceu tragado pelo mar, e também o fora em vida pelos olhos de Capitu.
Para muitos críticos, entre eles Gledson, o tema central da obra não é o adultério de Capitu, é, antes de tudo, um estudo sobre o ciúme doentio de Bentinho, essa obsessão patológica, coberta por um lirismo passional e perturbador, capaz de envolver os leitores mais insensíveis, tema pelo qual Machado também era de certa forma obcecado.
Na obra, o ciúme não nasce das semelhanças de Ezequiel - filho de Bentinho e Capitu - com Escobar, ainda que o agregado da família de Bento, José Dias, insinue a traição a partir das semelhanças, ou ainda que a avó do garoto, Dona Glória, não sentisse o menor apreço pelo menino. Nasce sim, dos olhos de Capitu, olhos que “criam” o ciúme voraz que por si dá origem à doença da desconfiança e a rede de incertezas de um homem inquieto e inseguro. A patologia nasce diante do corpo morto de Escobar, diante do “homem que recebera, defunto, aqueles olhos”.
Em relação à questão do adultério, Gledson e Aguiar possuem novamente diferentes pontos de vista. Para Gledson, o interesse de Ezequiel pela arqueologia depois de moço é outro truque de Machado para insinuar o adultério da esposa. Escobar, que sempre teve facilidade para realizar cálculos aritméticos de cabeça, teria deixado um filho com igual apreço por números; no caso de Ezequiel, datas. Já para Aguiar, o fato de Ezequiel ter se tornado arqueólogo pode ser uma pista de que Bento é mesmo o pai do garoto. Isto porque Dom Casmurro é um obcecado pelo passado, objeto de estudo da arqueologia.
Criador do sorriso cínico que não provoca gargalhadas, mas conduz a uma reflexão crítica e profunda, o bruxo ardiloso, Machado de Assis, deleita-se com a inquietante perturbação que provoca. Diverte-se com as múltiplas surpresas que cria no leitor à mercê de um narrador quase tão bruxo quanto ele. Narrador este, que desafia a desmascarar a alma humana a cada nova leitura. Dom Casmurro é, sem dúvida, uma das melhores poções do Bruxo do Cosme Velho, e a receita para ela encontra-se na crítica de Gledson.